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Sexta - 24 de Novembro de 2017
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Uma vida ofuscada

Por: Ademiro Alves (Sacolinha)

 

Depois daquele beijo combinaram de se encontrar mais tarde. Eram dez horas da manhã de um caloroso sábado, e os noivos estavam mais que felizes.

Amanda é uma jovem de 26 anos. Anda sempre sorrindo, é comunicativa e muito simpática.

Faz dois meses que terminou o curso de administração de empresa na universidade. Agora aguarda ser efetivada na empresa em que atualmente faz um teste.

O seu noivo Acácio, é um ótimo artista plástico. Homem negro de seus 33 anos, Acácio começou a se dar bem na vida. Além de dar aulas particulares em seu ateliê, é instrutor de arte na secretaria de cultura da cidade do Rio de Janeiro. A sua renda chega a atingir dois mil e duzentos reais por mês, isso quando não vende nem um quadro; coisa rara. É claro que nem sempre foi assim. Isso lhe custou muito esforço. Antes pintava quadros e fazia esculturas, ao mesmo tempo em que era segurança de uma agência bancária. Sempre admirou os trabalhos de Van Gogh, Salvador Dali e Picasso. É um fã incondicional de Waldomiro de Deus, o homem que pintou a imagem de Nossa Senhora Aparecida de mini-saia.

Após ganhar vários concursos de artes plásticas e virar destaque na cidade maravilhosa, Acácio foi contratado pela prefeitura e começou a ser procurado pelos artistas famosos que queriam adquirir as suas obras.

Saiu do anonimato.

Seus quadros surrealistas não mais são vistos nas paredes encardidas dos pequenos escritórios da cidade. Agora as obras de Acácio habitam os hospitais e as faculdades particulares do Brasil e as casas dos gringos no exterior.

Com todo esse sucesso, ele aproveitou para adiantar as coisas que já estavam atrasados em sua vida havia tempos. Comprou um carro, um terreno e começou a construir a casa onde irá morar com a futura esposa.

Neste sábado ele foi na casa da Amanda de manhã e os dois marcaram de sair á noite.

O dia passou sem maiores detalhes.

Depois de haver negociado uma exposição de artes plásticas num grande shopping center, Acácio voltava pra Jacarepaguá. Quando vinha á 70 Km/h e vendo uma blitz policial reduziu para 50. Á 20 metros da blitz, um policial apontou o foco de uma lanterna que tinha em mãos no rosto dele. O mesmo ficou sem visão e perdeu a direção do veículo que foi colidir numa viatura. Acácio bateu a cabeça no volante e desfaleceu.

Vendo que estavam errados, os policiais procuraram achar algo que incriminasse o motorista. Enquanto alguns policiais prestavam socorro, outros revistavam o carro. Um deles disse:

- O cara é negro vê se o carro está no nome dele, talvez é até roubado.

Antes da viatura sair com Acácio em direção ao hospital, um policial remexeu a sua carteira procurando o documento pessoal e do carro. Ele já havia achado os documentos, mas não perdeu a oportunidade de pegar os quatrocentos reais que Acácio tinha na carteira e colocar no bolso.

Meia hora depois chegaram com a vítima no hospital. O médico de plantão foi obrigado a dar eletro-choque no peito dele para trazê-lo de volta a vida.

O artista plástico conseguiu sobreviver. Hoje vive sem pintar, sem trabalhar, sem falar e sem se mover. Ele sobrevive numa cadeira de roda, ouvindo e sempre tentando falar alguma coisa, que seus familiares nunca entendem.

Hoje Amanda parece que economiza o sorriso e a comunicação. Não se vê mais simpatia no rosto desta mulher. Ela continua com o noivo; cuida dele como se fosse a única pessoa que ainda tem no mundo.

Os pais do antigo artista plástico pagaram o concerto da viatura e respondem processo no fórum.

Os policiais torcem até hoje para Acácio não voltar a falar.

 

 

 

Ademiro Alves (Sacolinha)

Autor do livro: Graduado em Marginalidade

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