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Sexta - 24 de Novembro de 2017
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O Brasil para muitos

Por: João Henrique Valerio

Neno, assim era conhecido um garoto de 12 anos, morador do Morro da Formiga, uma das favelas mais violentas do Rio de Janeiro. Neno tinha o sonho de ser artista plástico, sonho raro para um menino acostumado com tiros, tráfico, maldade e tudo o que uma típica comunidade ignorada pela sociedade pode oferecer.

Ele estudava  durante o dia, ou melhor, ia para escola somente para se alimentar, já que os professores não tinham interesse nenhum em educar, só apenas em cumprir sua agenda anual de matérias e o seu horário de  trabalho. Nos finais de tarde ele corria para a praia próxima a Orla de Copacabana, a sua paixão era fazer esculturas na areia, no caminho recolhia algumas latas de refrigerante no chão para vendê-las e ajudar sua mãe com as despesas do seu humilde barraco de compensado. Castelos do tipo medieval era o que ele mais gostava de esculpir, mas não eram simples castelos,  ele realmente tinha o dom e não deixava escapar nenhum detalhe, esculpia até as catapultas no alto do castelo, igual viu em um filme que passava na vitrine de uma loja de eletrodomésticos. Todo dia era assim, Neno ficava até a noite fazendo verdadeiras obras primas, adorava vê-las prontas e ficar admirando-as. Sempre voltava no dia seguinte bem cedo pra ver se ainda estavam lá mas só encontrava os vestígios, quando não era o tempo, era algum playboy fazendo cooper  que as destruía, ele já havia presenciado esse fato certa vez, mas sabia que era assim mesmo, em tudo, chegou até dormir na areia tentando vigiar um de seus castelos, um dos mais belos que já havia feito, mas foi inútil. Sonhos, projetos, desejos, dignidade, tudo pra ele era bem claro,  quando uma pessoa da mesma origem que a sua tomava alguma iniciativa positiva, buscando o crescimento, a evolução, vinha algum Doutor e podava o sonho de dias melhores, de alguma forma a sociedade limitava o seu povo. Neno era inteligente e sabia que seu povo oferecia perigo às auto denominadas pessoas de “bem”. Não o perigo da violência que já era de costume, mas sim o perigo do poder de expressão. Os poucos favelados que conseguiam fugir da alienação eram condenados e julgados através de preconceitos medíocres e hipócritas.

 Neno comparou sua vida e a de seu povo com as esculturas feitas na areia.  Assim como elas, seu povo tentava permanecer em pé sem que ninguém os derrubasse, sem que o preconceito os atingisse, queriam permanecer com dignidade junto à sociedade, mas era inútil. Assim como os castelos de areia não conseguiam durar mais que algumas horas ou minutos na praia, o gueto  não teria chance de ficar em pé diante desse monstro que chamamos  de sociedade, sistema, ou qualquer outro nome que usam para se qualificarem ou se “organizarem”.

 Às vezes uma pessoa ou outra elogiava suas esculturas, ele gostava desses elogios, e quando era dada a oportunidade ele ia logo pedindo:  - Porra, firmeza pelo elogio, mas aí Tio, tu não tem um trocado pra eu comer um lanche não? Quase sempre alguém lhe dava uma moeda. Por medo de seu vocabulário ou por dó, mas davam. Pra ele já era um adianto. 

Naquele dia Neno estava feliz, tinha conseguido cinco reais oferecidos por um gringo que gostou de sua escultura. Ele passou no mercadinho do Menezes e comprou um pacote de macarrão espaguete, que seria o alimento do dia seguinte, e um sorvete de uva que há tempos não saboreava. Estava subindo o morro sentido ao seu barraco, conhecia todos ali no Morro da Formiga, mas sempre andava só, o muleque era ligeiro não queria encrenca pro seu lado. Ouviu alguns tiros e não estranhou pois essa era a trilha sonora oficial da sua comunidade, entrou pelos becos tentando se afastar de onde vinha os disparos, conhecia o morro muito bem, quando adentrou o último beco antes de chegar em seu barraco ouviu:  - Aí ladrão, para aí! Só deu tempo de virar pra trás e perceber um dos “Alemão” (policial) com a arma apontada pra ele, os disparos ardiam seus ouvidos e um estalo de luz saia da arma do Tenente. Sentiu a camiseta que ganhou de sua mãe no seu aniversário, avermelhada de sangue, colando ao seu corpo, a boca estava muito seca e ele já não tinha mais força pra se levantar. Pensou naquele último instante no castelo que havia feito aquele dia, como havia ficado bonito! Será que estaria lá ainda? Neno não teria essa resposta no dia seguinte. E antes de perder totalmente os sentidos ainda ouviu o policial falar:  - Aí, chega ai parceiro, peguei mais um filho da puta aqui, desce o corpo pro asfalto, deve ter mais algum por aqui... 

É, Neno realmente era inteligente e estava certo, de uma forma ou de outra ele e seus semelhantes um dia seriam limitados, julgados e até condenados por um País onde a hipocrisia já começa nas palavras que constituem sua bandeira. Essa é a realidade de muitos no Brasil. Uma realidade ignorada, que não merece tanta atenção como o futebol ou o carnaval.


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